PERFUME DE ISOLINA
Perfume de Isolina
Isolina era minha bisavó, para
mim era tão somente Vó Linda, fui saber o nome verdadeiro dela já na
adolescência, mas não fazia a menor diferença. Desde de o primeiro dia, até o
último dia que me lembro, para mim, sempre foi Vó Linda.
Hoje senti o cheiro do funcho, o perfume
da Vó Linda. O quintal da casa tinha um pé de funcho, quase sempre eu pedia, e
ela gentilmente fazia o chá de funcho. Colocava em uma xícara branca com um
pires com alguns ‘Biscoitos Maria’.
O aroma me fez ouvir novamente o
rádio com o programa do Zé Bettio tocando bem cedinho. A casinha azul com
gradil baixo, jardim mal cuidado, banheiro fora da casa e quintal enorme. Tinha
caqui e outras frutas, verduras e algumas ervas... perto do tanque de lavar
roupas o pé de funcho.
No jardim montei meu primeiro
computador, inspirado nas naves espaciais da tv, feito de peças velhas de
bicicletas que sobravam da oficina do Sr. Gaspar. No jardim joguei bola de
gude, na rua brinquei de bete. Na hora de entrar para a casa e fechar a porta
com tramela, raspava os pés em um limpador de barro.
O tempo passou, eu cresci, a Vó
Linda veio morar aqui. Dei para ela uma bengala, era engraçado. Ela levava a
bengala para passear. A Vó Linda não encostava a bengala no chão e nem se
apoiava nela. Apenas segurava a bengala suspensa no ar.
O cabelo da Vó Linda ficou branco
como algodão, sempre bem penteado, sem um fio fora do lugar. Eu “esgandaiava” o
cabelo dela só para ouvir ela xingar. “Seu
cagão nas cueca!” e logo em seguida deitar o cabelo certinho na cabeça. Eu
nunca vi a Vó Linda chorar, poucas vezes a vi “clamar” das coisas.
O tempo passou e ela ficava
sentadinha no sofá vestida com seu penhoar, rindo das nossas bobagens. Sempre nos
xingando quando virávamos o chinelo dela ou atrapalhávamos o cabelo de algodão.
Muitos anos depois dela ter preparado para mim a última xícara de chá de funcho,
ela me olhou e não sabia quem era eu. Quando o carro dobrou a esquina eu sabia,
a Vó Linda morreu.
Ela nunca usou um perfume feito à
base de funcho, esse perfume é meu, foi ela quem deu.
Leo Marques 26/02/2018
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